
Fazer um filme inteiro prestando homenagens a filmografia de alguém pode ser uma via de duas mãos: ou o trabalho acaba reconhecido, como Bastardos Inglórios, a enorme referência ao cinema de Sergio Leone feita por Quentin Tarantino, ou pode gerar o incômodo sentimento de que se está diante de um produto formuláico, que por melhorers fossem as intenções, não acrescentou muito, nem à obra do referenciado e muito menos de quem a idealizou. Super 8, dirigido por J.J. Abrams e destaque nos cinemas brasileiros a partir deste final de semana, fica entre essas duas definições, com tendência a deixar a última falar mais alto.
Buscando inspiração no que Steven Spielberg (que assina a produção) fez de melhor durante as décadas de 70 e 80, o cineasta é muito eficiente ao criar um “filme de Spielberg”, mas falha ao desenvolver uma obra que tenha uma identidade própria. Talvez essa não fosse a proposta, mas apenas mostrar pros novos espectadores como o diretor de undefinede E.T
. é importante também não é a melhor justificativa para se fazer um filme. Pra isso, bastaria relançar suas obras no cinema. Super 8 não é ruim, mas causa estranheza por parecer um fanfilm, como o que os garotos protagonistas tentam fazer durante a projeção. Na trama, situada em 1979, as crianças, lideradas por Charles (Riley Griffiths), tentam produzir um curta-metragem de zumbis, que busca inspiração na obra de George Romero (há inclusive uma simpática citação ao diretor no roteiro dos jovens cineastas). É um exercício de metalinguagem, pois Abrams está fazendo a mesma coisa com seu filme (com alguns milhões a mais do que a produção amadora das crianças).

No grupo de garotos está Joe Lamb (Joel Courtney), que há poucos meses perdera a mãe num acidente na metalúrgica que parece mover financeiramente a pequena cidade de Lillian. Seu pai (Kyle Chandler) é um delegado local que, por perder a esposa e ter de enfrentar sozinho o emprego e as funções domésticas, exibe um semblante cada vez mais cansado, ao mesmo que tempo que assume uma postura de impaciência com seu filho. Numa noite, Joe e seus amigos estão gravando uma cena para o curta na estação de trens local, quando uma enorme locomotiva descarrila (a sequência do acidente é impecável), deixando escapar o que parece ser uma terrível criatura. A partir daí, estranhos desaparecimentos começam a acontecer na cidade, ao mesmo tempo que aumenta a movimentação do exército no local, já que o trem acidentado era das Forças Armadas. Os garotos então partem para sua grande aventura, tentando desvendar o mistério.
Quem conhece a obra de Spielberg, nesse pequeno resumo da premissa de Super 8, já identifica inúmeras referências ao diretor. A tensão existente entre pai e filho, pessoas comuns tentando desvendar uma trama oculta e figuras militares como como antagonistas são apenas alguns dos elementos recorrentes em vários filmes dirigidos ou produzidos pelo influente cineasta. Não há problemas nisso, afinal, roteiros, de certa forma, são colchas de retalhos de experiências vividas ou bagagem cultural de quem escreve. O que incomoda um pouco é Abrams emular seu mestre em tudo. Dos elementos visuais até alguns vícios e cacoetes, o criador de Lost insiste em deixar bem claro, a cada quadro, que o espectador está vendo uma homenagem (apaixonada, sem dúvida) e não um filme seu. Até mesmo aqueles reflexos causados pelo contraluz, para desespero da crítica especializada, e que Abrams usa a exaustão em seu longa anterior, a versão reimaginada de Star Trek, entram em Super 8 de forma moderada, lembrando muito mais a fotografia de Contatos Imediatos do Terceiro Grau do que qualquer outra coisa.

É importante ressaltar a qualidade técnica do filme. Sua edição de som, por exemplo, é responsável por um dos melhores momentos da projeção. Repare na sequência em que o Xerife da cidade para no posto para abastecer seu carro e como o suspense é criado a partir do barulho da bomba de combustível. Outro detalhe, ainda no quesito sonoro, é a música criada por Michael Giacchino, evocando a contribuição do grande compositor John Williams, não só aos filmes de Steven Spielberg, mas à própria história do cinema. Por outro lado, embora o departamento de arte tenha sido muito bem sucedido na recriação da época, não é muito inspirado no design da criatura, muito semelhante a do filme Cloverfield, que Abrams produziu, dificultando gerar no espectador alguma simpatia, principalmente por seus atos nada bondosos que nem mesmo os anos de abusos por parte do exército não justificam.
A intenção não precisa ser genial. J.J. Abrams não deve provar nada, já que tem em seu curto currículo na sétima arte, dois eficientes exemplares, como a supra-citada nova versão de Jornada nas Estrelas e Missão: Impossível 3. Ambos cumprem a promessa de diversão sem subestimar o público, além de terem se saído muito bem nas bilheterias. Pra Hollywood, isso já basta. E nisso Super 8 também não desaponta. É uma Sessão da Tarde de qualidade, com um elenco mirim afiado, que diverte e emociona na dose certa. Como já dito, não é um filme ruim, de forma alguma. Mas não por méritos do diretor, e sim pelo uso de tudo que Steven Spielberg percebeu que funcionou por duas décadas de profissão, seu período mais memorável, em que cada novo filme era um blockbuster e cujo legado, Abrams faz parte.
Seja na cena inicial, uma bela indicação da tragédia que atingiu a família Lamb (e porque não, a cidade, como a tomada indica ao revelar a morte como um acidente em sua maior empresa) ou no desenvolvimento dos personagens, em que nenhum momento o roteiro deixa esquecer como essa é uma história humana, fica nítido o potencial do material original e como teria rendido um filme mais interessante se não ficasse preso à carta de “obrigado por tudo” de Abrams e sua vontade de reverenciar mais do que referenciar. Até mesmo o último ato é prejudicado, por um grande número de “conveniências” que precisam acontecer para que a trama tenha o desfecho esperado. Sim, porque em determinado momento todo o mistério que foi gerado pelo marketing do filme se prova inútil, graças ao caminho previsível que a narrativa escolhe para chegar ao final.
Ironicamente o tema central de Super 8 é o da superação, seja de um ente querido morto (representado de forma até bonita no último ato), do medo (com Joe arriscando sua vida para salvar a garota que ama, interpretada por Elle Fanning) ou de traumas. O texto mostra que é possível se desligar do passado e seguir adiante. A situação é irônica porquê Abrams não segue o que prega e ao invés de mostrar que é possível inovar, mesmo com tantas homenagens, acaba por criar algo que não é seu. Um filme preso à glórias de outro, que, por sinal, soube como ninguém se reciclar ao longo dos anos.
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Sobre o Nerd: Alexandre Luiz é formado em jornalismo e pós-graduado em Cinema e Vídeo. Trabalha como Redator Publicitário e administra o blog RE-ENTER<http://reenter.blogspot.com>, cujo conteúdo passa por notícias, artigos, críticas e curiosidades sobre cinema e Cultura Pop em geral.
Twitter: @alexluizbr
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